terça-feira, 28 de novembro de 2017

Sombras de sombras


Por Mohammad Abdullah Ansari

Sayyidina Hakeen Tirmidhi em seu livro Nawaadirul-Usool narra que Sayyidina Zakwaan (a.s.), um companheiro do Profeta (s.a.w.s.), disse: “Não era possível ver a sombra do Profeta (s.a.w.s.) nem no brilho do sol e nem na luz da lua”.

Em seu Masnavi, Mawlani Yalaluddin Rumi escreveu: “Não apenas o Profeta (s.a.w.s.), mas inclusive um servo ordinário que chegar à etapa de mortalidade interior (baqa), sua sombra desaparecerá, como a do Profeta”.

Este mundo é uma manifestação de Deus. Você vê o mundo assim? Este mundo toma a forma da percepção de cada um, tanto perceptiva quanto fisicamente, isto é, tangivelmente, o mundo toma a forma dos desejos e dos níveis espirituais da conglomeração das pessoas em cada parte, assim como no mundo todo. Ainda assim, mesmo que o mundo reflita o nafs/ego das pessoas comuns, muito longe do padrão projetado por Deus, um indivíduo pode chegar a ver a realidade detrás de tudo. Na verdade o mundo é amorfo e mutável. Não é tão sólido como parece. A solidez das coisas e sua rigidez dependem da condição do ego da pessoa. Quanto mais você acredita neste mundo como o fim de tudo e como a verdadeira realidade e quanto mais estiver absorto em si mesmo, menor e mais duro será o seu mundo.

O que é a religião? A verdadeira religião é a ciência – como as coisas funcionam. De fato, a ciência física não é mais do que uma extensão da ciência “espiritual”. Na verdade não há separação entre “espiritual” e não-espiritual, tudo é um. Uma ação desencadeia uma consequência tanto no mundo de energia densa, “sólido” e visível como no mundo de energia menos densa de ações, pensamentos e atitudes.

Por que o Profeta Muhammad Mustafa (a paz seja com ele) não tinha sombra? Porque não tinha ego.

O mundo muda tangivelmente por nosso estado espiritual, nossas percepções, desejos e crenças e, além de ser um obstáculo no progresso e evolução espiritual, o ego congela o mundo do indivíduo, o faz encolher, bloqueando a visão das realidades mais profundas atrás de tudo supostamente “material”. Tudo o que você vê no mundo tem só uma realidade relativa. Ver sua realidade essencial só é possível com a dominação do nafs/ego.

Abraham Abulafia (1240 – 1291), um grande cabalista disse: “A vida normal da alma está encerrada nos limites determinados por nossas percepções naturais e emocionais, e enquanto esta vida estiver plena destas, encontrará extremamente difícil perceber a existência das formas espirituais e das coisas divinas. Por conseguinte, o problema é encontrar um caminho para ajudar a alma a perceber além das formas da natureza (o mundo material) [...]; a solução é sugerida por este antigo adágio ‘quem está cheio de si mesmo não tem lugar para Deus’. Tudo aquilo que o eu natural (o ego) do homem ocupa deve ou bem desaparecer ou bem transformar-se”.

O ego é uma criação de desejos e medos, não têm uma realidade intrínseca; sua existência é alimentada pela crença neste mundo e nesta vida como fins em si, como se fossem a meta da existência. É um círculo vicioso, o ego se criou com o esquecimento do Criador durante o crescimento do indivíduo e a crença no ego como uma realidade faz a percepção do indivíduo ver o mundo cada vez mais sólido e permanente – o oposto da realidade. A realidade do mundo é um redemoinho de energia e mudanças constantes. Sintonizar com Deus por meio da lembrança constante Dele diminui a crença no nafs/ego e abre os olhos internos para ver a verdadeira realidade energética do universo e assim ver a Deus em tudo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Expectativas, decepções e aceitação

Caderno de trabalho sufi Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari Tudo o que vemos, isto é, este mundo material e as coisas que lhe s...