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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Dar



Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

Abu Bakr Al-Siddiq foi um personagem importante no Islã. Foi um companheiro do Profeta e o primeiro dos 4 califas corretamente guiados depois da morte do Profeta. O Profeta ensinou os métodos do Sufismo a duas pessoas: Ali Bin Abi Talib e Abu Bakr. Enquanto a maioria das tariqas sufis se originam de Ali, a tariqa Naqshbandi tem Abu Bakr como o primeiro de sua linhagem. O que segue é um hadiz (tradição verídica) sobre Abu Bakr.

Uma vez o Profeta pediu que todos dessem o que pudessem para um projeto de caridade. Omar Bin Al-Khattab, outro dos quatro companheiros do Profeta mais importantes, tinha algo de dinheiro para oferecer e disse a si mesmo: “Chegou o momento em que poderei ganhar de Abu Bakr”. E trouxe a metade de todo o dinheiro que possuía. O Profeta lhe perguntou: “Quanto você guardou para sua família?”. Omar respondeu: “uma parte igual”. Mais tarde, no dia em que Abu Bakr chegou com tudo o que tinha e o Profeta lhe perguntou “quanto você guardou para a sua família?”, Abu Bakr respondeu: “deixo para Allah e Seu Mensageiro”. Diante disso, Omar comentou: “nunca mais vou tentar competir com Abu Bakr quando o assunto for caridade”.

Não sugiro que você imite o Abu Bakr, muito embora ao dar todo o seu dinheiro, Abu Bakr sempre terminou ganhando mais. O que acontecia? É ciência!

O corpo humano, como expliquei em outros contextos, é um condutor de energia. Temos o exemplo da bomba de uma casa que faz subir a água para a caixa d’água no telhado. Mas, o que acontece quando a água não sobe? Por que não sobe? É porque tem ar no cano e por isso não há fluxo. Se você colocar água no cano ou tirar de outra forma o ar, a água enche o cano e tudo começa a fluir. De fato você nem precisa da bomba. Uma vez que [a água] está fluindo se cria uma sucção natural como podemos fazer ao chupar uma mangueira.

O corpo humano é similar. O corpo contém redes de energia. Quando essa energia não flui bem, aparecem as doenças. Toda doença é o resultado de bloqueios de energia e/ou desequilíbrios de energia no corpo. A dor corporal resulta de uma concentração excessiva de energia em uma área do corpo. Para eliminar a dor é necessário fazer com que a energia se mova de novo reduzindo-a até seu nível adequado na área afetada, bem como restabelecendo o equilíbrio energético no corpo inteiro.

Dar é similar. Quando você da, quer seja de forma material ou emocional, até um sorriso, é como tirar obstáculos (o ar do cano) e você cria uma sucção e fluxo natural. Quanto mais você da, mais você recebe. No Islã a acumulação de riqueza excessiva é proibida. É como comer em excesso, o corpo não pode digerir tudo o que comeu no tempo apropriado e o excesso apodrece no estômago e nos intestinos e produz toxinas e doenças. Se você tem desejos materiais em excesso e acumula demais sem compartilhar, são criados bloqueios de energia positiva tanto no corpo físico quanto no corpo energético (o ser real) e a energia se torna negativa causando danos importantes tanto para a vida terrena quanto para a vida futura.

Tudo o que é material é uma manifestação de realidades espirituais. A acumulação de bens materiais e de dinheiro são manifestações de estancamentos de energia divina e bloqueios contra a entrada da guia divina. A guia divina chega em uma forma não tão diferente que os cabos e/ou ondas que trazem informação ao seu rádio ou televisão – energia. Se há um curto circuito nas redes elétricas da sua casa, a energia da companhia de luz não chega. Você fica na escuridão. É igual com o seu corpo físico e sutil.

O não dar e a acumulação de riqueza também são um ato de medo, a fonte de todas as emoções e estados negativos na vida. Mesmo que você precise ser prudente e prático, precise proteger a sua família e se preparar para o inesperado, o excesso leva você espiritualmente à ruína, bem como a muitos problemas na vida presente, inclusive enfermidades físicas e emocionais.

“Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.” (Evangelho de Lucas 6:38)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Remova os limites


Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

Um sábio lama tibetano escreveu:

“Vocês se lembram da história de um Geshe Kadhampa [um lama da linhagem budista tibetana] que viu um homem circunvalando [um ritual religioso, dando volta, caminhando] uma Stupa [monumento ritual de peregrinação]? O Gueshe lhe perguntou: ‘o que você está fazendo?’. O homem respondeu ‘circunvalando’. O Geshe disse: ‘não seria melhor se você praticasse o Dharma [conduta reta, leis universais]?’. Depois viu que o homem estava fazendo prostrações e quando lhe perguntou o que fazia, o homem respondeu: ‘estou fazendo cem mil prostrações’. ‘Não seria melhor se você praticasse o Dharma?’ - perguntou o Gueshe.

E assim continua a história, mas aqui o ponto é que só fazer atos que parecem ser devotos como as circunvalações e as prostrações não é necessariamente praticar o Dharma [seguir o Sistema de Deus]. O que temos que fazer é transformar nosso apego a nós mesmos e a atitude de autossatisfação. E se não mudarmos nossa mente desta forma, nenhuma das outras práticas que fizermos servirão; fazê-las é só uma brincadeira.” (Lama Thubten Yeshe)

O lama explicou a importância de uma atitude amorosa amável, uma forma de ser que os budistas chamam bodichita, de querer o bem-estar de todo o mundo, a todos os seres sencientes, de desviar a atenção de si mesmo em direção a todos os demais, igual como os profetas Jesus e Muhammad (Maomé); amor – Jesus pregou a todos, até aos inimigos e a vida do Profeta Muhammad foi um exemplo de amor puro.

Há algum tempo escrevi o seguinte sobre o tema:

“Na verdade há tantos caminhos como há pessoas, todos nós somos diferentes e todos temos necessidades espirituais distintas. Um lema sufi diz: “O amor é o caminho mais rápido até Deus”. O amor, o método do amor para conhecer a Deus e conseguir a “iluminação” é composto por compaixão e compreensão, um desejo de que outras pessoas sejam felizes e exitosas e que consigam a proximidade com Deus. Uma oração do budismo tibetano é:

Que todos os seres sejam felizes,
Que todos os seres se libertem do sofrimento,
Que ninguém seja despojado de sua felicidade,
Que todos os seres consigam igualdade, livres de ódio e de apego.

Querer que todo mundo seja feliz e que haja paz no mundo inteiro é logicamente impossível, mas o desejo de que aconteça é uma forma poderosa de romper a ilusão egocêntrica de separação. Como diz o Alcorão, todos somos criados a partir de uma única alma, todos estamos conectados, querer o bem de outra pessoa é querer o bem de uma parte de nós mesmos, ajudar a uma pessoa é ajudar a nós mesmos, amar a alguém mais é amar a nós mesmos. Querer que todo mundo seja feliz e livre de sofrimentos é uma forma poderosa de combater o domínio do ego.”

No tempo dos profetas as pessoas entenderam o porquê dos ensinamentos, o poder energético dos mestres era tamanho que suas palavras tocavam ao coração e não era necessária mais explicação. Hoje em dia tudo é diferente.

Hoje queremos saber: por quê?

“Os servos do Compassivo (Deus, ar-Rahman) são aqueles que vão pela Terra humildemente e que, quando os ignorantes lhes dirigem a palavra, dizem: Paz!” (Sagrado Corão 25:63)

Nossa realidade, o ser divino, reside em nós mesmos, mas está enterrado embaixo de uma invenção criada por nosso apego ao mundo e uma grande avalanche de influências mundanas – o ego, o grande EU. Não há outra maneira de chegar a conhecer nosso verdadeiro ser, nossa realidade, nosso núcleo divino, sem dominar o ego.
  
Falar de ego e de sua eliminação assusta a pessoas normais, creem que o ego é quem são, que o ego é sua individualidade e sem ele se tornariam menos, quando na verdade é o contrário, o ego nos torna pequenos, nos encolhe; além do ego há um vasto universo – todo um universo está dentro [de nós]. O ego é uma personalidade falsa, uma criação do mundo material e suas influências – na realidade não existe, é um fantasma. O ego é uma crença, é criado de fantasias de quem somos e assim nos restringe entre essas fronteiras, os limites que nós mesmos nos colocamos. Se você pensa que é isso, você não é tudo o demais.

O verdadeiro ser não tem limites, é parte da Realidade Divina. “E Ele é quem vos criou de uma só Alma...” (Sagrado Corão 6:98). Estamos conectados a todas as outras almas, somos mais que um indivíduo, somos parte de tudo e assim muito maior do que já experimentamos.

Somos tontos limitando nosso crescimento e desenvolvimento espiritual ao nos apegarmos a essa fantasia prejudicial, o ego, nossa imagem de ser.

Nossa salvação é nosso próximo, nossa atitude para com os demais, nossos bons desejos para com todos, nossa ajuda até os limites de nossas habilidades. Tudo isso implica uma luta contra nós mesmos, ou melhor, contra nossos interesses, orgulho, soberba, raiva, preconceitos, preconcepções e todo o demais que constitui a irrealidade que criamos.

Toda a negatividade, pensamentos e emoções negativas nos levam a vidas de sofrimento e dor. Temos que manter em mente que cada coisa que fazemos por outras pessoas, cada bom pensamento e emoção, na realidade estamos fazendo por nós mesmos.

Lembre-se o que é o amor. O amor é a frequência energética através da qual a guia de Deus flui. Faça a conexão. Ame e conecte-se.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Faça um favor a si mesmo: ame!


Por Mestre Mohammad Abdulla Ansari

Escrevi recentemente:

A ideia de bem e mal é relativa e não existe em um sentido essencial, quase ninguém acredita que está fazendo o mal, fazem o que lhes convêm, o que acreditam que é bom para ele ou ela. Mas em termos práticos, é claro que há pessoas e atos que... são maus, causam dano a outras pessoas. Mas, eles causam mais danos a si mesmos que a outros, e as consequências de seus atos vão retornar para eles com acréscimos tanto aqui durante a vida física quanto depois da morte...

Estamos rodeados de mal, pessoas violentas, ladrões e muita desonestidade. Devemos nos proteger contra toda a maldade que nos ameaça diariamente, mas, como escrevi, temos que entender a verdadeira realidade da situação. Passamos por este mundo material de energia densa para aprender de Deus, ou seja, aprender e entender a ciência da existência.

E (Deus) criamos todas as coisas em casais (ou opostos). Talvez assim reflitais. (Alcorão 51:49)

O mundo é baseado em equilíbrio, um balanço entre forças, energia positiva e negativa, na essência não há bem e nem mal, tudo é um, um não pode existir sem o outro. Perguntaram-me: por que existe o mal, por que Deus permite o mal? Podemos dizer que não há luz sem escuridão, não existe cima sem baixo, e assim sucessivamente, e isso é parte da resposta. Outra resposta importante se trata da nossa razão para estar aqui neste mundo, a de crescer espiritualmente, conhecer a Deus. Isso requer escolhas, livre-arbítrio; ao escolher entre o correto e incorreto estamos modelando nossa alma e construindo nosso destino. Sem o mal, não existiria livre-arbítrio – com tudo perfeito e bom não haveria motivo para viver, não haveria forma de cumprir nosso propósito neste mundo e vida.

Como uma pessoa causa dano a si mesmo ao cometer um ato mau, como mencionei na citação acima, nossa reação a essas pessoas e situações negativas é um elemento chave para nosso desenvolvimento espiritual. As emoções e pensamentos negativos, além de seus efeitos nocivos a nossa saúde física, causam danos a nossa alma, nosso desenvolvimento espiritual. Tudo é energia. Emoções e pensamentos têm frequências que ressoam com frequências iguais tanto internas como externas com efeitos correspondentes.

O amor real é uma frequência divina (não é uma emoção), e é como cola que une elementos. Disse Jesus: “Ama o teu inimigo”. Algo difícil de fazer, a menos que vejamos o amor com entendimento – se entendemos a verdadeira condição das pessoas más, sua ignorância e sua relação ou posição espiritual na existência, a viagem de desenvolvimento das almas, de nossa conexão tanto com ele ou ela, como com toda a humanidade não só nesta estadia curta aqui, mas por toda a eternidade, as reações negativas se dissolvem e começamos a experimentar o efeito unificador/que conecta do amor.

Amar só é difícil se entendemos o amor como uma emoção, amor emocional, no lugar de sua realidade energética, uma frequência divina com um efeito pegajoso que nos faz sentir a realidade de que somos uma única entidade, conectados e unidos com Deus.

Expectativas, decepções e aceitação

Caderno de trabalho sufi Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari Tudo o que vemos, isto é, este mundo material e as coisas que lhe s...