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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A respiração e a conexão divina

CADERNO DE TRABALHO SUFI


Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

“Todas as almas louvam a Deus com cada respirar”
(Salmo 150)

Cada exalação retorna para sua fonte do Alto e outra respiração chega do Alto e entra. Saiba que você não está respirando, mas Deus, bendito seja, está respirando em você. Recorde a Deus, Sua Misericórdia e Grandeza com cada respiração. A respiração nos da vida, e a observação dela nos desperta e nos dará consciência e sabedoria.”
Baal Shem Tov

Baal Shem Tov foi o fundador do Hassidismo, um ramo cabalístico importante do Judaísmo. Foi sufi no sentido que o Sufismo sempre existiu, e a Cabala foi uma das formas que o Sufismo tomou anteriormente. Leia o que diz um trecho da Cabala sobre Baal Shem Tov:

O último conceito que o rabi Isaac do Tania (Baal Shem Tov) cita é a o conceito de hashraá. É um termo difícil de traduzir. Sua raiz é shara (“submergir”), que implica uma infiltração persuasiva de um elemento ou força superior dentro de outro inferior. É usado comumente em referência à Shekhiná, a Presença universal de Deus dentro do reino criado. Desta maneira a identificamos com o conceito da onipresença Divina.

O termo hashraá é também usado no sentido vernáculo de ‘inspiração’, implicando uma força infinita que abrange a própria realidade, e eleva o indivíduo a um pleno transcendente que de outra forma seria inacessível para ele. Por exemplo, a inspiração que às vezes deriva de submergir-se regularmente dentro da presença de um tzadik (mestre, sheik) é tamanha, que a pessoa pode em certos casos adquirir alguma das capacidades do tzadik, apesar dele seguir sendo em essência o indivíduo que era antes.

[...] De acordo com o Baal Shem Tov, a imanência Divina implica uma equivalência direta com Deus e todos os outros níveis de realidade, como é expresso pelo aforismo hassídico: ‘Tudo é Deus e Deus é tudo’.

Não se pode dar muita ênfase à importância de respirar. Ou melhor, nas ramificações e realidades da respiração. Obviamente o ar nos da vida (que Deus usa para nos dar a vida), então na prática o ar e a respiração são imprescindíveis. Mas isso só reflete sua realidade espiritual que é igualmente, ou inclusive mais importante. Na citação dos Salmos vemos como a verdade, sobre a respiração e o ar, é mal entendida geralmente. A tradução hebraica realizada acima pelo grande mestre é a tradução correta. As traduções em espanhol, português e inglês transpõem as palavras evitando a interpretação  profunda. Dizem que todo ser que respira louve a Deus. Isso não é o que o hebraico diz. Você deve entender que o processo de respirar, o movimento físico e a atenção vinculam o ser com o Divino. É por isso que a palavra ar e respirar em muitos idiomas (Latim, Grego, Sânscrito, Hebraico, Árabe, Chinês e outros) é igual a espírito ou alma. O ar, ou o componente sutil que acompanha o ar, cruza dimensões e faz a conexão entre o ser e a fonte de tudo.

Entretanto, enquanto isso é um fato automático nos animais e outras criaturas, o ser humano tem a opção, o ser humano tem que aproveitar conscientemente essa realidade para funcionar. Deus quer que nós nos submetamos voluntariamente – é um princípio básico de nossa existência, parte de nossa existência terrena.

Em tudo o que fizermos, vamos nos submeter a Deus ou ao nafs. Talvez você acredite que há outra possibilidade, mas não há. E a respiração é a prova. Veja como a respiração reflete seu estado emocional e o ambiente em que você anda – sempre e quando não está conscientemente participando. O que quero dizer com participando? Desperto, alerta, observando a respiração e controlando-a. Inclusive ter consciência desse fato, o da natureza errática da respiração, é revelador. Trate de manter-se consciente de sua respiração por um longo tempo (bem, mesmo um período curto). Você verá que em pouco tempo a esquecerá, por completo. Mas durante o período em que você poderia observá-la você se dará conta de como reflete seu estado mental e emocional e provoca reações físicas não saudáveis. Essa é a parte reveladora. Agora trabalhe para manter uma consciência da respiração em todo momento. Além disso, mantenha-a constante, relaxada e regular. Essa é a parte prática.

Ao fazer o que foi dito acima onde estarias? Te falo: no presente, no momento presente. Não existe nada mais presente do que a respiração. Como dissemos, a maioria das pessoas raramente está no momento presente – está no passado ou no futuro. As recordações do passado não são preciosas e muito pouco do que esperamos que aconteça no futuro acontece como esperamos. Nossos pensamentos do passado e do futuro são falsos. Só o momento presente é real. Quanto mais tempo você passar no presente, realmente no presente, mais você vai ver, experimentar e entender; seu mundo se tornará maior e os distúrbios emocionais desaparecerão.

Por meio da respiração a consciência, com o tempo, chega. Uma consciência da outra realidade, uma expansão dimensional e outros benefícios que deixarei para que você experimente por si mesmo.

Quero que meus estudantes respirem como o Baal Shem Tov descreve na citação no início deste escrito. Regule suas inalações e exalações e, desta maneira, controle as emoções diretamente. Quando não estiver fazendo uso da mente diretamente em algum trabalho relacionado com alguém – quando estiver dirigindo, caminhando, etc., diga ao inalar Allah e ao exalar Hu (se pronuncia Ru, o pronome Ele, referindo-se a Deus). Cada inalação e cada exalação devem recordar-lhe de Deus. Trate de sentir que é Allah respirando em você.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Viver sem viver


Por Mohammad Abdullah Ansari

Você pode encontrar tempo para meditar três horas por dia, seis, ou mais, ou se retirar a uma montanha e se sentar em frente de uma árvore (como Buda fez) e olhar dentro de si até que você chegue a um estado de paz e tranquilidade. Então você pega seu carro para voltar a casa e a bateria morre. Você liga para sua esposa e escuta uma mensagem dela que diz que lhe deixou por outro. Chega um mecânico que carrega a bateria, mas rouba o macaco do seu carro e outras coisas que você guardou nele. De caminho para casa um policial lhe detém e tira quinhentos reais de você com um pretexto qualquer. Você chega em casa e encontra o seu filho drogado e a sua casa destruída. Sua filha chega com o namorado dela, um inútil, para lhe dizer que está grávida e os três vão morar na sua casa, e: o que tem na geladeira?

Você conseguiu manter a sensação de paz e tranquilidade?

Temos dito que este mundo é de importância primordial, um passo indispensável em nossa viagem de uma longa vida, que esta vida não é mais que uma estadia curta, mas crucial. Nossa evolução como seres humanos não pode ser completada se nos escondemos da principal fonte de ensinamento e desenvolvimento: o próprio mundo. Talvez seja correto acreditar na reencarnação, porque se morremos sem cumprir o nosso trabalho na Terra voltaremos para tentar realizá-lo outra vez. Quase o mundo todo é como monges porque estão vivendo sem viver, isto é, sem consciência, uma espécie de sonho.

Obviamente não sou contra a meditação, mas sim contra a prática ou forma de meditação que não induz a um estado de consciência elevado que lhe da a habilidade de entender e tratar com os acontecimentos difíceis desta vida; essa meditação não vale nada! A meditação que você faz apenas por períodos curtos ou longos não é nada mais que uma parte do trabalho necessário. Devemos estar despertos às 24 horas do dia. Temos que aprender a ler os sinais que a vida continuamente nos está dando. Devemos poder usar as práticas mais importantes que fazemos dentro de nossas atividades cotidianas. De fato, devemos usá-las ou não valem nada! Além disso, algumas das práticas mais importantes se encontram dentro destes escritos mesmo – práticas e atitudes que se realizam ou usam continuamente durante o dia.

Bem, falamos da consciência. Quando dizemos consciência estamos nos referindo a um estado de perceber, de estar presente no momento, de presença plena. Significa não estar pensando ou preocupando-se do passado ou do futuro, mas [estar] apenas no presente. Significa estar alerta e pronto. Significa que nenhuma coisa, nenhuma emoção ou atividade está levando você a viagens mentais, fantasias ou afundando-lhe em emoções negativas ou reacionárias. Estar vivo, no momento, sem medo.

Estar consciente significa que vês as coisas como realmente são, não por meio de percepções manchadas de preconceitos, preconcepções, recordações, gostos e desgostos.  Não reaja negativamente a nenhuma provocação e ninguém poderá lhe ferir. Você é invulnerável!

Se realmente você entendesse a beleza deste estado ou condição você o buscaria. Mas não é tão fácil como apenas querer, as forças negativas e o ego são fortes demais. Entretanto, podemos entrar neste estado, ou níveis ou graus dele, e nele estamos quando praticamos várias formas de meditação. Outra maneira simples de conceber esta consciência é auto-observação. Quando você está observando a si mesmo, tanto nos exercícios meditativos como em plena atividade mundana, você está se colocando na posição de observador. Quem é o observador? Quem está observando a quem?

Há exercícios de séries de movimentos, Tai Chi ou os de Chi Kung, ou desse estilo que tratam da consciência corporal. Sentimos o corpo, no começo muito pouco e com o tempo, muito forte, e, então, o fluir intenso da energia. É como se estivéssemos vendo o corpo, sentimos e vemos, e, assim nos separamos dele – estamos ali, mas não ali. A consciência está vendo o corpo, estamos nos posicionando na mente real, a consciência do coração, e entramos numa consciência elevada de presença plena. A consciência corporal adquirida nesse tipo de exercício é uma consciência parcial e específica, é para praticar exercitando músculos sutis necessários para a consciência mais ampla requerida para estar realmente desperto, consciente e alerta na plena atividade da vida cotidiana.

Outra forma de auto-observação é a de uma pessoa checando continuamente sua própria conduta. Alguém preocupado, como todos devemos estar, de no cometer erros na sua forma de pensar, isto é, vigiando-se a si mesmo de pensamentos e emoções negativas como julgamentos e a raiva. Isto pode estender-se mais profundamente até colocar-se em um estado de consciência de si mesmo em que todos os processos e reações, corporais, emocionais e mentais estão presentes à vista. Quem está vendo?

Aquele que está vendo e experimentando tudo é o ser real, o coração, a parte da alma entre o nafs (o ser o alma terrena) e as partes da alma conectadas a mundos superiores e à própria força Divina. A direção divina e a ajuda de Deus chegam através do coração.

Qualquer pessoa pode alcançar um grau de consciência fazendo o que foi acima descrito. Mas manter este estado e fazê-lo crescer e convertê-lo em um hábito é outra coisa. Sem a prática, depois de alguns momentos a pessoa é novamente devorada por forças exteriores e, então, [termina] em uma avalanche de pensamentos e emoções provocadas por ditas atividades e forças; dormindo.

Estamos usando termos meio seculares. Nas sendas espirituais, nos ramos místicos de todas as religiões, os praticantes focam continuamente em Deus. Encontrei esta prática, pela primeira vez, quando era jovem, no começo da minha busca espiritual, ao estudar os primeiros cristãos, neste caso, os padres do deserto. Eram cristãos coptas do Egito que repetiam dia e noite o nome de Deus (não sei que nome usavam). Uma das principais práticas do Sufismo é o zikr (dhikr) que é a repetição dos 99 nomes de Deus (Allah). Dhikr significa lembrança de Deus. Meu Sheik (mestre) sempre nos diz: “Foquem em Allah”. Quando você entende a verdadeira realidade da forma semi-secular de auto-observação e o método de focar na Entidade Suprema, verá que é a mesma coisa. As duas requerem conhecimento: quem é você? Quem está observando a quem? E na outra, um conceito da Unidade Sagrada suficientemente ampla, grande e não material.

Posicionados no coração várias coisas podem acontecer. Uma é que o poder do nafs/ego está encolhido, não pode exercitar tanto sua vontade, o canal de envio ao cérebro está ocupado pelo coração e isso reduz as reações emocionais e o fluir de neurotransmissores negativos e nocivos ao corpo. Outra coisa é abrir o canal e fluir de energia, que queima a negatividade e aumenta o estado de consciência criando o que podemos chamar um círculo virtuoso no lugar de viciosa. Continuaremos.

Expectativas, decepções e aceitação

Caderno de trabalho sufi Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari Tudo o que vemos, isto é, este mundo material e as coisas que lhe s...